Observatório

Educação e Agronegócio: A nova ofensiva do Capital nas Escolas Públicas

30/11/2017
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O agronegócio tem ido muito além do campo e das fronteiras, vertiginosamente ele avança sobre as mentes dos jovens nas escolas e planta as ideias que o setor quer

Para finalizar a análise sobre a questão ambiental e o agronegócio, neste último artigo faço uma reflexão entre a educação e o agronegócio sob a ótica de algumas pesquisas que estão sendo realizadas por importantes estudiosos desta temática no Brasil. Trabalhos acadêmicos procuram problematizar sobre a nova ofensiva do capital nas escolas públicas e também universidades públicas e particulares de algumas regiões do País. Analisa-se o esforço da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) para a obtenção da hegemonia, tanto entre a própria classe dominante quanto em relação, sobretudo, à classe dominada. À luz destas pesquisas, nosso objetivo também é examinar como esta entidade patronal articula a formação de seus intelectuais orgânicos ao projeto de hegemonia, visando responder a indagação sobre a sua atuação como um partido do estado maior do capital na atual configuração do bloco histórico.

 

O historiador Rodrigo de A. C. Lamosa em sua Tese a esse respeito busca compreender os nexos entre educação, classes sociais e Estado em sentido ampliado, ou seja, incorporando tanto a sociedade política como a sociedade civil e seus intelectuais, individuais e coletivos, numa concepção gramsciana. Para realizar tal pesquisa, Rodrigo analisou vários documentos produzidos pela ABAG, como informativos, cartilhas, artigos e vídeos, onde analisou as mensagens veiculadas por esses meios informativos no sentido de criar um consenso e uma direção aos seus projetos de controle e dominação.  A ABAG possui o Programa Educacional – Agronegócio na Escola organizado por esta entidade em dezenas de escolas municipais de educação do Estado de São Paulo, desenvolvendo ação pedagógica com alunos, professores e diretores dessas instituições de ensino.  A Associação Brasileia do Agronegócio (ABAG) foi fundada em 1993, em um evento no Congresso Nacional, com o objetivo de unificar os representantes dos segmentos produtivos que compõem o agronegócio no Brasil.

 

O pesquisador Rodrigo Lamosa identificou que a ABAG forma, por um lado, seus dirigentes, a partir de programas de pós-graduação, como o PENSA na Universidade de São Paulo ou o FGV-Agro, e, por outro lado, forma seus intelectuais de “baixa patente”, composta pelos profissionais da Educação Básica que atuam espontaneamente no Programa Educacional Agronegócio na Escola, desenvolvido nas últimas duas décadas, em escolas públicas de dezenas de Redes de ensino de São Paulo. Rodrigo concluiu que a ABAG atuou como um “Partido”, no sentido “gramasciano”, formando um braço pedagógico, responsável por formar seus intelectuais orgânicos, difundir seus interesses e valorizar a imagem do “agronegócio” no país, forjando a consciência política de sua classe social.

 

 

As principais estratégias utilizadas se concentram na área da “comunicação, utilizando os meios mediáticos e a escola pública como principais instrumentos de difusão da nova imagem do agronegócio brasileiro”. O intuito da associação é divulgar sua atuação e preocupações em várias frentes seja política, institucional, educacional, social ou ambiental. “O Programa Educacional Agronegócio na Escola está inserido no projeto de hegemonia da ABAG. Por um lado, o partido do “agronegócio” organizou seu braço pedagógico, formando uma camada de intelectuais orgânicos responsáveis por organizar e dirigir a atuação do partido. Do outro lado, desde 2001, através do programa de Educação Ambiental dirigido às escolas públicas, a ABAG incorporou em seu projeto de hegemonia outra camada de intelectuais, associados ao sistema público de educação, que se tornam orgânicos à medida que passam a desempenhar papel fundamental na reprodução da classe dominante, difundindo junto aos jovens estudantes, oriundos da classe trabalhadora, alguns oriundos de assentamentos rurais, um ideário de apologia ao modelo agrário dominante”.

 

No entanto, por outro lado, educar os alunos para “fazer frases, desenhos e participar dos concursos” indica ser a principal forma de internalização entre os alunos da nova imagem promovida pelo agronegócio brasileiro, expressa nas frases vencedoras e premiadas pela ABAG, afirma o nosso pesquisador. No entanto, o papel dos docentes no programa está longe de ser reduzido a mero repassador. Isto acarretaria na eliminação da força criativa do trabalho pedagógico realizado por estes profissionais no interior das escolas, além de ser um tipo de intervenção que estaria mais sujeita a resultar em formas de diversas resistências, afirma Rodrigo.

 

No contexto destas reflexões podemos afirmar que a ABAG atua, no período recente, no papel de partido do agronegócio, ou seja, criando consensos e “educando” as novas gerações para aceitarem as contradições sociais, políticas e ambientais que este setor desenvolve no Brasil. Ao longo das últimas décadas, esta associação conseguiu realizar a unidade entre algumas das principais frações do capital associadas ao agronegócio (caso da APROSOJA de MT), realizando um duplo trabalho na formação de diferentes níveis de intelectuais orgânicos, sendo capaz de inserir seus interesses no interior de Conselhos, Comissões e Ministérios (Blairo Maggi/Agricultura) e também de assimilar professores de escolas públicas de certas regiões estratégicas do Estado.

 

O Prof. Elismar Bezerra em sua recente pesquisa sobre a Educação dos trabalhadores em Mato Grosso no tempo do agronegócio, demonstra o caráter concreto da Educação das massas trabalhadoras no plano estadual, destacando-se suas especificidades no processo econômico-social do Agronegócio. Nessa direção, “busca-se evidenciar as conexões contraditórias entre Educação e Economia que caracterizam esse processo, bem como as suas consequências para a Escola Pública e, especialmente, para as concepções e as atividades político-pedagógicas dos educadores no desenvolvimento da educação escolar dessas massas em Mato Grosso”. Este pesquisador busca estabelecer a relação entre o trabalho sob o capital na forma do “Agronegócio, e a Escola Pública ou o processo educacional-escolar das massas trabalhadoras – considerada, essa escola, como o espaço-instrumento no e pelo qual, majoritariamente, essas massas tentam se educar”. Busca-se, assim, demonstrar, a “dependência e o subdesenvolvimento como os elementos “ocultos” que orientam o desenvolvimento estadual hegemonizado pelo Agronegócio, desde a sua gênese”. “Tal direção econômica e social efetiva-se como projeto societário da fração hegemônica da classe proprietária, determinando a educação das massas trabalhadoras no sentido da preservação dessas características do nosso desenvolvimento”.

 

A Educação também revoluciona. Então, tem-se por fim, a aposta na história indicando que a Escola Pública, sob a direção ou hegemonia em construção dos trabalhadores, pode ser desenvolvida afirmando essa perspectiva – ainda no tempo do Agronegócio.  É importante destacar que o discurso do chamado setor produtivo primário (agronegócio) é profundamente anacrônico, pois, como afirma o Prof. Dr. Gilberto Felisberto Vasconcellos, “desenvolvimento e subdesenvolvimento estão interligados, são partes de um mesmo processo social e econômico. Portanto é fundamental e este é o papel da Universidade fundamentar as suas pesquisas em conceitos sólidos, buscando sempre as causas dos fenômenos. A ideologia é discurso que disfarça e encobre as coisas, os conflitos sociais e encobre as contradições para justificar a ordem social vigente, tal qual acontece com o domínio das empresas multinacionais e dos bancos estrangeiros, onde impõe políticas sócias ao Brasil como o Banco Mundial”. A partir dessas reflexões que procuramos destacar o papel estratégico que o agronegócio através da sua maior expoente entidade representativa, a ABAG, propomos algumas estratégias e ações políticas: Que as nossas escolas desenvolvam projetos voltados para uma efetiva educação ambiental, política e econômica em todos os níveis de ensino com abordagem teórica e prática, (des)naturalizando os conflitos e as contradições socioeconômicas de interesses ideológicos e hegemônicos; destaco ainda o papel das Universidades públicas de Mato Grosso neste contexto em criar redes de estudiosos, docentes e pesquisadores num esforço de compreendermos esta temática e tornar público através de uma rede de estudos e pesquisas sobre esta questão numa visão crítica; organizar encontros onde  proporcionem um diálogo interdisciplinar e fortaleçam tais grupos de pesquisas; pressionar a classe política para formular políticas públicas dos entes da federação (União, Estados e Municípios) com programas de fiscalização, orientação e repressão aos crimes ambientais; incorporar às ações humanas as mudanças da natureza e termos uma visão holística, pensarmos na sua integração e preservação;  lutarmos por uma justiça ambiental, onde a distribuição dos bens da natureza possam ser distribuídos de uma forma igualitária entre todas as pessoas; Organizar anualmente uma Jornada de Estudos sobre o Agronegócio em Mato Grosso com uma visão crítica e analítica da realidade social deste Estado.

 

Sendo este, um espaço de debates e discussões entre várias entidades e instituições públicas com objetivos de apresentar as experiências de trabalhos abordando seus aspectos sociais, econômicos, culturais e ambientais na perspectiva de estruturar um corpo de conhecimentos que permita a ampla compreensão desse segmento específico da realidade rural, tanto do Estado de Mato Grosso como de outros Estados. Este evento acadêmico, científico e cultural poderá ser organizado em blocos onde as principais discussões sejam debatidas em Mesas Redondas e uma Conferência, e expandidos para Grupos de Pesquisa com apresentações em Sessões Orais de trabalhos submetidos e aprovados por um Comitê Científico. O evento deverá fazer faz parte de uma série de seminários voltados a um público amplo e não necessariamente especializado, sobre temas das várias áreas do conhecimento. O objetivo é debater o papel e a influência do agronegócio na formação intelectual e educacional das atuais e futuras gerações.

 

 


Autor/Fonte: Prof. Dr. Edison Antônio de Souza


Avaliação Especialista

 Uma observação pertinente sobre o futuro da qualidade da produção de alimentos no Brasil


Especialista: Prof. Dr. Edison Antônio de Souza


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